haroldo dutra dias 2017 É comum se ouvir espíritas afirmando que não têm tempo para ler e para estudar. Considerando sua carreira como magistrado, a atenção que deve dispensar à família, e seu trabalho no Movimento Espírita, as viagens e as traduções, que exigem muito tempo, pode nos dizer qual é a fórmula para conseguir conciliar tudo isso?

Eu acredito que o primeiro ponto seja a consistência. A consistência, às vezes, é mais poderosa do que a intensidade. Por vezes, percebemos que existem criaturas que querem imprimir uma intensidade: Vou estudar dez horas por dia! É difícil isso, é difícil, se não estiver de férias ou algo assim. Mas, podemos, ao longo de vinte e cinco anos, estudar meia hora por dia.

O que sempre fiz na minha vida foi aproveitar momentos. Estou no avião, estou lendo, aprendendo alguma coisa. Estou num intervalo de uma audiência, tenho meu iPad e estou recolhendo alguma coisa. Aproveitando esses momentos, somados, a longo prazo, têm um grande efeito e um efeito cumulativo, que é o principal. Se eu estudo uma obra, uma outra página, começo a fazer conexões. Não tem mágica. O segredo está na consistência, na disciplina e no aproveitamento. Eu aproveito pequenos, breves momentos para estudar sempre, sempre. Naturalmente, quando vou preparar uma palestra, geralmente faço um roteiro, tenho as mensagens que vou citar, estão separadas no iPad. Esta preparação do estudo é muito rica porque me força a buscar coisas inusitadas, no sentido de que não estão no dia a dia. Há o texto da Revista Espírita, a mensagem do Emmanuel, o texto da Amélia [Rodrigues], da Joanna [de Ângelis]. Tudo vai enriquecendo, vai formando uma teia de conhecimentos.

O que o estimulou a traduzir os livros do Novo Testamento? Houve alguma orientação espiritual direta ou partiu de sua livre iniciativa?

Na verdade eu não tinha nem vontade, nem imaginava, foi casual. Marta Antunes estava na Federação Espírita Brasileira – FEB com um projeto de mediunidade e a Federação citava, em cada capítulo da apostila, porque era uma apostila, e estava inclusive traduzida para o inglês, cada capítulo abria com um versículo do Evangelho.

A FEB escolheu determinada tradução e colocou os versículos. Quando foi passar para o inglês, começou o problema: qual tradução utilizar? Na época, o Presidente era Nestor Masotti, que acionou o meu grande professor, Honório Abreu, Presidente da União Espírita Mineira, à época. Em Belo Horizonte, por conta de Honório Abreu, havia o Grupo Emmanuel, um grupo sério que estudava a Codificação. Honório falou bastante a respeito do Evangelho para Nestor e ele ficou encantado. Chamou Honório à Brasília. Como eu estava muito próximo, eu o tinha orientado, me levou com ele.
Fomos Honório, Ruth Salgado, que era do Departamento de Mediunidade da União Espírita Mineira, e eu, para nos encontrarmos com Nestor Masotti e Marta Antunes. Chegou um determinado momento, o assunto era complexo: qual a tradução que a Federação iria avalizar? Um negócio complicado. Nestor cogitou:

“E se tivéssemos como traduzir, mas que não fosse uma tradução espírita?”

O compromisso do Espiritismo é com a verdade. A tradução deveria ser neutra, literária, acadêmica, que qualquer pessoa pudesse ler. Para minha surpresa, o Sr. Honório falou: “Haroldo vai fazer.”

Foi realmente um desafio. Ele me disse:

“ Você vai aprender muita coisa traduzindo.”

E é verdade. Uma coisa é ler para si mesmo, outra é parar para traduzir. Agora, estou retomando as traduções das Cartas de Paulo para completarmos e faremos um processo de revisão da primeira, porque a primeira edição ainda tem muitos erros. Penso que precisa ser mais trabalhado. Espero revisar esse conteúdo e traduzir as Cartas de Paulo, que está dando um trabalho imenso porque tem muita deturpação, às vezes, incompreensível. Paulo escreve uma frase direta, simples e a pessoa inverte a frase, muda. Acho que vai ser interessante esse trabalho das Cartas.

Na atualidade, no mundo conturbado em que nos encontramos, como pode o jovem conciliar a sua vida com o Evangelho de Jesus, considerando os tantos apelos que recebe pelas mídias, dos colegas, dos amigos? Jesus pode ser o Modelo e Guia para os jovens do hoje?

Penso que Jesus bem compreendido é uma juventude florida. Eu fui Juiz da Vara de Infância e Juventude, pude entrar em contato com o que chamamos de dramas da juventude, a gravidez precoce, droga, suicídio, dramas afetivos, dramas de sexualidade, dramas de relacionamento com família, com pais, família, desorientação do que fazer na vida, quem eu sou? O que eu quero? O que eu vou fazer? E, Jesus compreendido dessa maneira que o Consolador Prometido traz, na essência moral, fortalece. Ele traz um jovem mais forte, mais consciente de seus potenciais, consciente de seu papel, um jovem orientado por valores.

Esse jovem é capaz de ter relacionamentos mais saudáveis, é capaz de ter uma sexualidade mais saudável, é capaz de se movimentar na questão do estudo, profissão, esses desafios. Ele é mais sereno, por conta da visão da integridade, dos seus próprios potenciais, consegue ver-se de uma maneira mais ampla, não apenas como um corpo físico, mas como um Espírito milenar.

Aí ele entende que é jovem turbinado, é um jovem Ex, Mega, ao contrário do outro que, por falta de referenciais, elege referências patéticas. Vemos isso. Alguns ídolos, que realmente nos entristece porque são pessoas completamente desorientadas.

Fui formado num movimento de mocidade espírita, desde os quinze anos, quando conheci o Espiritismo. Pude conviver com esses jovens, que eram dinâmicos, voltados para a arte, para o estudo, com um nível de estudo, de informação, antenados, ligados. Era uma juventude forte, na época de 86, 87. O movimento de Mocidade, no país inteiro, muito forte. A minha referência foram esses jovens, que depois se tornaram grandes lideranças.

Mas, como explicar toda essa informação que os jovens têm, essas referências e nós os vemos deprimidos, com tendências suicidas, até mesmo jovens da Casa Espírita? A que se deve isso e o que se pode fazer?

Acho que temos um grande desafio, hoje, que é a quantidade de informação. Existe informação, que é puro entretenimento sem sentido. Percebemos isso quando mapeamos o conteúdo da Internet. Parece que o vazio interior, a falta de um verdadeiro norte, de um sentido espiritual, produz uma ânsia desenfreada por entretenimento. Então, as pessoas querem entretenimento a qualquer custo.

Vemos isso pelo Youtube dos jovens, têm milhões de seguidores. Assistimos e constatamos ser pura banalidade. Digo que é a apoteose da vulgaridade, sem um milímetro de profundidade. Agora, o veículo que eles utilizam é poderoso.

Percebemos que são veículos poderosos de conexão e uma abertura que a juventude tem por esses mecanismos novos. O segredo é se pudermos aliar a profundidade do conteúdo do Consolador Prometido aos mecanismos atuais contemporâneos da tecnologia. Acho que são indispensáveis os Youtubes do bem, esses Youtubes espíritas que vão surgir e estão surgindo; outros canais que vão mostrar que dali podemos extrair uma finalidade, levar um conteúdo que seja agradável, belo, bom e útil. Acho que esse é o segredo, porque realmente o jovem de hoje tem uma conexão diferente. Eles têm uma maneira diferente de aprender, de lidar e precisamos nos adaptar. É a Lei do Progresso.

160 anos de Espiritismo na Terra - o que falar sobre esse tema, qual sua mensagem final?

Gratidão. Quando nos chegam as provas, as lutas, se não fosse o Consolador Prometido entraríamos em desespero, esse é meu testemunho. Somente consigo manter a minha sanidade mental, emocional, graças ao Consolador Prometido, ao consolo, não só dos livros da Doutrina, mas, do Movimento Espírita, dos amigos.

Recebemos uma mensagem, uma palavra de carinho, uma orientação e essa rede, eu chamo de rede protetiva, que o Consolador Prometido construiu na Terra, nos sustenta. Só quem passou por uma experiência de dor para entender isso a fundo, quanto o Espiritismo nos sustenta. Sustenta a família, sustenta lares, corações.

Lembro que Kardec, quando fez sua primeira viagem a Lyon, 1861, fez um discurso em um grupo. É incrível que ele fala do progresso do Espiritismo. Quatro anos - o progresso do Espiritismo. Ele cita a estatística dele, o número de suicídios que o Espiritismo evitou. Vai mostrando isso, exatamente essa ação consoladora do Espiritismo. Não tem outro caminho. Nossa palavra é de gratidão.

E para encerrar então, é possível ser feliz na Terra?

É possível, dentro do que a Terra permite e do que a nossa programação espiritual estabeleceu para o nosso aprimoramento. Encarnamos não para usufruir apenas de uma felicidade completa. Encarnamos com um projeto de aprimoramento espiritual, a fim de usufruirmos uma felicidade perecível. Em O Evangelho segundo o Espiritismo – O homem no mundo, fala de como precisamos extrair alegria das coisas pequenas, simples e ser feliz o máximo que puder, sem alimentar a ilusão de que a dor, a prova, a expiação é algo que Deus manda contra nós, pelo contrário, é a nosso favor porque vai nos aprimorar, vai nos aperfeiçoar. Tudo que Kardec falou no livro O Céu e o Inferno – cada imperfeição que trazemos gera motivo de infelicidade. Por isso, não há como construir uma felicidade legítima se não passar por um processo de purificação das imperfeições. Seria alimentar um projeto ilusório de felicidade.

Podemos dizer: O projeto espírita é um projeto de felicidade legítima. Nós nos aprimoramos, nos aperfeiçoamos para merecer a felicidade e para aprender a mantê-la. Alcançar a felicidade, às vezes, não é tão difícil, o difícil é mantê-la.

 

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.